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Como é possível? - 2
E então temos o desespero. Desespero é a desesperança em grau máximo, aquilo que se sente ao perceber que está tudo perdido ou prestes a se perder. A constatação de que não há mais o que fazer para mudar uma situação difícil.
Creio que não dá para julgar as atitudes de uma pessoa desesperada do mesmo modo que se julgariam suas atitudes em uma situação diversa.
Imagine, por exemplo, que você começa a sentir uma dor de cabeça terrível de um dia para o outro. Que te tortura e não te deixa trabalhar, produzir, viver. Você toma remédios e mais remédios por conta própria. Apela mesmo para a condenada automedicação. Depois de tomar remédios por semanas a fio você ainda sente muita dor. Como tomar remédios não adianta, você decide ir ao médico.
Depois de uma verdadeira peregrinação por inúmeros consultórios, pilhas de exames feitos e toneladas de remédios tomados, você ainda não tem idéia do que há de errado. Os médicos não encontraram nada de anormal.
Você já largou seu emprego; não tem mais vida social. Sua “vida” nos últimos seis meses se resume em dormir – quando consegue - e ficar deitado o dia inteiro num quarto escuro sentido dor. Uma dor lancinante, que faz sua cabeça pulsar. E a cada pulsada, você sente ainda mais dor.
Você se vê cada vez mais perplexo, confuso e desesperado. Desistiu de procurar ajuda médica.
O que você faria? É aqui que o desespero final se apodera da pessoa, e ela se torna capaz de qualquer coisa para se ver livre daquele tormento. Alguns se matariam aqui. E honestamente não os condeno.
Um belo dia alguém se aproxima do seu leito de dor e diz que ouviu falar de um “pastor”, de um “missionário” famoso por curar várias pessoas. E garante que pode te ajudar.
Novamente pergunto: O que você faria? Lembre-se que naquele momento o que manda é a dor e o desespero. E creio que muitos, senão a maioria, entrariam nessa fria. Passariam, quando pudessem, a freqüentar os cultos, vigílias, semanas de oração, semanas santas de Israel e outros.
Você descobre durante as "pregações" do tal “pastor” que para conquistar uma bênção especial você precisa fazer uma doação igualmente especial – um verdadeiro sacrifício. Mas veja bem, você precisa ter fé, pois sem fé é impossível agradar a Deus, certo?
Tudo o que você tem a fazer é “doar” algo que o tal “pastor” determinou. Pode ser mil reais. Pode ser seu carro. Pode ser metade da sua renda. Pode ser sua casa.
E se ao final dessa aventura, já com mil reais a menos, sem carro e sem casa você, em meio a toda aquela dor, finalmente percebe que foi roubado, que se aproveitaram da sua fé, fragilidade física e psicológica, o que você faria?
É essa a questão. Em condições normais de temperatura e pressão essa pessoa jamais pisaria numa “igreja” dessas. Não perderia tempo ouvindo tais mentiras. Mas o desespero mudou tudo, a falta de perspectiva e uma vida infernal fizeram a pessoa esquecer até do seu bom senso.
Esse grupo, os dos desesperados, ao contrário dos egoístas e ambiciosos –citados no post anterior – não podem ser censurados. São as maiores vítimas. São vítimas, não culpados.
Tenho dó dessas pessoas e torço para que acordem desse transe pseudoreligioso. E encontrem de uma vez a solução para aquilo que tanto os atormenta. Que algo realmente possa satisfazer suas necessidades físicas, econômicas, espirituais.
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